RUÍNAS:
uma produção de O Som e A Fúria, MANUEL MOZOS, 2000
O filme
“Ruínas” é um documentário expressivo com uma sucessão de imagens com uma
perspetiva bastante observadora e captadora, porque capta os espaços que o país
esqueceu e deixou para trás, mas não despareceram. Muitos permanecem,
esquecidos, de pé com uma dignidade silenciosa, abandonados, mas não vencidos.
Ninguém repara neles mas eles continuam ali.
“Há
quanto tempo ninguém andava por aqui? Quem se lembra ainda do que aqui se passou?”
são questões que se colocam ao refletir sobre o filme.
Este
filme mostra fragmentos de espaços e tempos, restos de épocas e locais onde
apenas habitam memórias e fantasmas, capta os vestígios de coisas sobre as
quais o tempo, os elementos, a natureza e a própria ação modificaram e
modificam.
E como
o tempo, tudo deixa de ser e transformam numa outra coisa per si.
Faz nos
refletir sobre os lugares que deixaram de fazer sentido, de ser necessários, de
estar na moda e vejo, tristemente, que são os lugares esquecidos, obsoletos,
inóspitos e vazios. Não mostra a origem nem a razão da existência destes
lugares nem o porquê foram transformados ou abandonados, mas a promover uma
ideia poética sobre algo que foi e é parte da história deste País.
Manuel
Mozos pretendeu filmar os espaços vazios e povoá-los, dar-lhes vozes, sons,
fazê-los habitar por fantasmas que, se calhar, não eram os fantasmas desses
espaços mas sim aqueles que acabaram de chegar e instalar-se.
Manuel Mozos
deu a vida a estes sítios degradados e é isso que torna o filme interessante e
fascinante, porque captou o retrato de um Portugal mais de misérias do que de
grandezas. No meio de todas as imagens estáticas e textos melancólicos percebe-se
que o objetivo era povoar estes espaços que já foram povoados em tempos por
outros, com sons e vozes e habitar os espaços com fantasmas novos que não
expulsam os velhos mas que se juntam a eles.
É, deste modo que o nosso
bairro deve ser retratado: não no geral, mas sim no particular; e recuperando a
essência que pode estar ou não perdida. O objetivo é dar vida ao bairro,
através do que já teve, do que tem e do que ainda pode vir a ter.
Por fim,
gostei do filme pois traz um olhar poético sobre os espaços esquecidos e faz
nos questionar qual a relação entre lugares e memórias e entre narrativas e
espaços? Surgem outros locais e outras construções abandonados: um bairro
silencioso, um restaurante, um cinema, um complexo balnear, uma igreja, uma
casa abandonada e uma fábrica em ruínas e os habitantes atuais são invisíveis. E
fez-me perceber que é desta maneira que o nosso bairro deve ser retratado por
particularidade. Devemos procurar a sua essência “esquecida” para lhe podermos
dar vida.


Sem comentários:
Enviar um comentário